A primeira versão desse texto foi publicada em 2014, no Blog Feminismo Sem Demagogia. Desde lá, muitas mulheres transexuais e travestis já colocaram a cara no sol por reconhecimento e direitos, mas elas ainda estão muito pouco presentes no movimento feminista, que ainda deve parecer bastante hostil. Apesar de algumas mudanças textuais, o espírito do texto mantém-se. Vale dizer que uso mulheres trans, mas o debate inclui travestis. A relação dos homens trans e pessoas não binárias com o feminismo mereceria um debate a parte.
Da posição — necessariamente limitada para esse debate — de uma mulher cis, venho refletir sobre a presença de mulheres trans nos espaços auto-organizados feministas. Por muitos anos essa participação tem sido um tabu e, embora cresçam o número de setores dentro e fora do feminismo que reconhecem e apoiam as pessoas trans em geral em suas lutas, ainda há poucas mulheres trans nos espaços feministas, e pouco esforço das feministas em trazê-las para a luta comum.
Alguns argumento contra a participação dessas mulheres em nossos fóruns são lugar comum, usados diversas vezes por setores trans-excludentes do movimento e que, mesmo quando não defendidos plenamente, tendem a afastar as mulheres trans dos espaços.
Um desses argumentos refere-se a uma suposta perda de foco que o movimento sofreria, ao ter que lidar com as pautas das mulheres trans. Na realidade, entre as mulheres cis há diversidade o suficiente para que tenhamos que ter múltiplos focos, e não à toa os últimos anos têm sido de crescimento de preocupações interseccionais no feminismo. Nesse sentido, o movimento feminista tem que lutar contra o racismo com as mulheres negras, contra a lesbofobia com as lésbicas e, por que não, contra a transfobia com as mulheres trans. E se há assuntos que precisaremos discutir que não dizem respeito diretamente a essas mulheres (como o aborto), há outros assuntos em que a voz das trans é fundamental, como a prostituição, a violência machista e a superexploração do trabalho feminino.
Outra questão, mais delicada, é o argumento de que a socialização masculina afasta as mulheres trans das opressões das mulheres cis — o que se desenvolve na ideia de que, no movimento, elas se imporiam sobre as mulheres cis. Antes de tudo, é importante não generalizar esse elemento, cada mulher trans passou por diferentes processos antes de sua transição. Por outro lado, é interessante a referência a um texto de uma mulher trans americana para pontuar alguns elementos[1]. Trata-se de uma mulher que transicionou cedo e chegou à vida adulta já plenamente assimilada (nas suas próprias palavras). A autora reconhece que teve uma processo de socialização (educação/criação) menos depreciador do que o das mulheres cis[2], tendo criado mais confiança em suas capacidades intelectuais e independência em relação ao corpo. Nessa discussão pareceria, portanto, plausível o argumento de que mulheres que não passaram pelos traumas da infância/juventude feminina tenderiam a ser mais confiantes e, em alguns casos, impor-se sobre as outras. A própria autora do texto defende espaços auto-organizados só para mulheres cis. A continuidade da argumentação pode, no entanto, apontar em outro sentido. A autora, embora seja jovem, já havia passado pelo processo de transição havia cinco anos, e descreve esse processo como um crescente de falta de confiança, maior timidez e violência[3]. Isso significa que, apesar da socialização anterior, essas mulheres sofrem machismo e sofrem cada vez mais na medida em que a sociedade a sua volta as reconhece como mulheres. O movimento feminista precisa estar com elas.
Nesse ponto, ainda, cabe refletir sobre o conceito de “privilégio cis”, particularmente sobre certa confusão que ronda essa ideia, uma vez que há duas acepções diferentes para a noção de “privilégio”. Uma delas, reivindicada muitas vezes para afirmar que não existe “privilégio cis”, é a de que privilégio exige que um grupo exerça poder sobre o outro, se favoreça diretamente da subordinação de outro grupo. Nesse caso as mulheres cis não teriam privilégio sobre as trans. Obviamente, porém, também não se poderia dizer que a socialização masculina é um privilégio das mulheres trans, como às vezes aparece nos discursos trans-excludentes.
Outra acepção de privilégio, no entanto, pode tornar o debate mais nítido: a relação de privilégio não depende da dominação de um grupo sobre o outro, mas da existência de grupos que são ou não favorecidos por um sistema de normatividade. Nesse sentido, assim como a mulher heterossexual não exerce poder sobre a lésbica ou a bissexual, mas é favorecida em todos os espaços sociais por adequar-se à heteronormatividade, também a mulher cis, embora não tire vantagem direta da transfobia contra as trans, é privilegiada por ser considerada “normal” e ser reconhecida pelo próprio gênero.
Superadas essas questões, ainda há mais uma argumentação disseminada contra à presença das mulheres trans no movimento feminista (esse texto não se preocupará, claro, em contrapor discursos de ódio biologizantes)
Para algumas feministas, a presença de mulheres trans nos espaços auto-organizados reforça os estereótipos de gênero. Isso pressupõe que as trans vão querer defender os direitos de usar salto alto, colocar silicone, usar maquiagem, fazer depilação, quando muitas vezes as mulheres cis sentem tudo isso como imposições. Em parte é possível dizer que esse argumento é apenas vazio, porque o movimento feminista não deve realizar ingerência sobre o corpo de ninguém, de forma que, se uma mulher cis quiser se maquiar, se depilar e por silicone, no máximo pode-se questionar se ela está submetendo suas escolhas ao desejo masculino. Por outro lado, o trecho abaixo, de outra mulher trans, indica como combater esse argumento é importante, não só para as mulheres trans, mas para o movimento feminista em geral:
“Reforçar estereótipos de gênero é especialmente atacado por transfeministas. Pois somos nós, pessoas trans, que somos institucionalmente obrigadas a conformar a eles de uma forma que dificilmente afetaria a maioria das mulheres cis. Se encaixar em estereótipos de gênero não é pauta teórica e discussão metafísica para pessoas trans. É condição sine qua non para termos nossos corpos e identidades respeitados, para termos acesso a tratamentos médicos, para não sermos assassinadas. Estereótipos de gênero são a única via para que possamos ter qualquer esperança de manter alguma integridade física e mental numa sociedade cisnormativa e patriarcal.” [4]
Esse trecho deixa a reflexão de que a luta contra estereótipos de gênero só pode ser reforçada com a presença de mulheres trans no movimento. E se até aqui esse texto apenas combateu argumentos contra a presença de mulheres trans nos espaços auto-organizados do movimento feminista, ainda falta refletir sobre por que essa presença é não apenas adequada, mas também necessária:
A história do feminismo é constituída por diferentes concepções sobre o que é “ser mulher” e a prática relacionada a essas concepções. Se num primeiro momento buscava-se pensar e lutar para que a mulher tivesse iguais direitos civis em relação ao homem, logo isso tornou-se insuficiente quando passou-se a entender que a desigualdade de gênero ultrapassa a falta de direitos civis, mas depende de todo um sistema de dominação masculina, do qual o capitalismo se aproveita para superexplorar o trabalho mulheres. Por isso, pensar o feminismo a partir de uma “identidade feminina” pode ser um problema justamente por não questionar as bases dessa identidade, fundada no sistema (binário) de gênero. Atualmente, há setores do feminismo que veem uma identidade positiva entre as todas as mulheres baseada em sua condição biológica, e veem a opressão ocorrendo principalmente nesse nível biológico. Em todos esses casos de defesa de uma identidade fechada, positiva, o feminismo não consegue responder à diversidade concreta das mulheres.
Precisamos das mulheres trans, em primeiro lugar, porque precisamos das mulheres em geral, de cada uma delas, com suas experiências e diferenças. Mas não só isso, precisamos das mulheres trans especificamente para nunca esquecermos que ser mulher não é uma identidade definida positivamente, a partir características (biológicas ou não) que nos igualam. Na nossa sociedade, em geral, ser mulher significa antes de tudo que somos oprimidas diariamente pelo machismo. O patriarcado-capitalista tem efeitos diferentes sobre as mulheres cis e trans, brancas e negras, heterossexuais e não-heterosexuais, mas tem efeito sobre todas nós, enquanto mulheres. Ser mulher é uma “identidade negativa”, ou seja, que não se constitui por nossas características comuns, mas por nossa opressão em comum. Ser feminista, nesse sentido, é assumir que nossa própria existência enquanto mulheres desafia todo um sistema de exploração e opressão.
NOTAS
[1]
[2]
Quando menino, fui consistentemente elogiado por meu intelecto e encorajado a procurar acadêmicos, e nunca tive a idéia de que eu era um objeto ornamental cujo único propósito era submeter-me e agradar aos homens. Nunca fui ensinado que meu corpo não era meu ou que meus pensamentos e sentimentos eram irrelevantes e, portanto, estava protegido do trauma que muitas vezes caracteriza as experiências das mulheres em sua infância e adolescência. No começo da adolescência fui elogiada por minha performance de feminilidade porque era supostamente mais bem executada do que a de minhas amigas, que em numerosas ocasiões me disseram que eu as fazia sentir inseguras por ser “melhor em ser meninas” do que elas. Por fim, desenvolvi uma espécie de complexo de superioridade distorcida: eu me odiava, mas ainda me sentia como se fosse mais digna do que as meninas de meu círculo, porque aceitei que eu era mais inteligente e mais bonita do que elas. (tradução minha)
[3]
Minha experiência e as experiências de muitas outras mulheres transexuais demonstra que, para nós, a assimilação muitas vezes significa passar a sofrer misoginia sistêmica e, assim, a dissipação de muitos dos efeitos da socialização masculina
[4]
http://feminismotrans.wordpress.com/ — Feminismo radical e Feminismo trans