por que inquietas?

por ana paula*

em muitos momentos de nossas vidas fomos assombradas por aquela sensação inquietante de algo familiar, mas que estava escondido, e que se revelava para nós. a cada tarefa atribuída a nós apenas por sermos mulheres, a cada silenciamento, a cada violência  que sofríamos ou víamos as mulheres que nos cercam sofrer, o que se desvelava era algo muito fundamental e estruturante da sociedade de classes e de um sistema econômico injusto.

o machismo e a misoginia que sofremos é o sustentáculo ideológico da opressão de gênero. e essa opressão é fundamental numa sociedade que explora o trabalho visando à acumulação do lucro nas mãos de poucos.

fundamental pois, além de determinar que alguns trabalhadores recebam salários mais baixos por serem mulheres e assim rebaixar os salários de toda classe, exonera o patrão, e o estado a seu serviço, da obrigação de alimentar e cuidar de todas as tarefas relacionadas à manutenção das forças de trabalho.    

não há capitalismo sem a exploração do trabalho doméstico feminino. e não há a exploração do trabalho doméstico feminino sem a ideologia machista que o naturaliza.

marx chamava de inquieto quem era consciente de sua participação no produto do trabalho. como mulheres trabalhadoras inquietas, criamos este espaço para divulgarmos e discutirmos nossas inquietudes. para dar voz a outras mulheres, seja traduzindo seus textos, seja abrindo o espaço para publicarem conosco. um espaço para inquietar e instigar quem nos lê, para revelar o que querem e precisam manter velado.

enquanto mulheres nos querem quietas, passivas. mas como mulheres, como trabalhadoras, somos inquietas, somos instigadas a transformar. se carregamos em nossos corpos a possibilidade de gerar a vida, e se por nossos corpos nos imputam a tarefa do cuidado, é com esses corpos e essa força que vamos transformar o futuro.  


ana paula é editora e tradutora por formação. bordadeira por influência das avós. marxista e feminista por convicção. estuda a desvalorização das artistas mulheres.