Tradução Maíra Mee Silva e Deivison Mendes Faustino
Revisão de Renata Gonçalves
Resumo
Um movimento contra a brutalidade policial eclodiu e abalou a sociedade americana até o seu cerne. Houve protestos diários nas semanas após o anúncio de que dois policiais brancos não seriam indiciados pelo assassinato de dois homens negros desarmados. Desde novembro de 2014, dezenas de milhares de pessoas participaram de atos, ações diretas e toda forma de protesto para se manifestar contra o racismo, a brutalidade e a injustiça no âmago das instituições legais americanas. Surgia o movimento Black Lives Matter. Este artigo apresenta a visão da autora a respeito deste movimento social
Há algum tempo li um artigo sobre o Anticristo, do Lars von Trier. Ao contrário das análises costumeiras, as quais o consideram uma obra misógina, a autora sustenta haver elementos na construção que indicam que o ponto de vista da obra é do homem, que em seu enlouquecimento tortura a mulher, mostrada como histérica. Concordando ou não com a interpretação, fui rever o filme e me chamou intensamente a atenção o fato de que o casal passa praticamente todas as quase duas horas de filme isolado.
Em A vida invisível, de Karim Aïnouz o isolamento de Eurídice dentro do núcleo familiar contrasta com a publicidade involuntária em que a vida de Guida se lançou. Entre as muitas cenas que poderiam ser invocadas para mostrar os efeitos desse isolamento, há uma em que seu marido diz que a irmã “está morta”, com tom de obviedade. O filme é elusivo sobre se ele sabia ou não que se tratava de uma mentira – é mais provável que sim. Pode ser o que convencionamos chamar de gaslighting, em referência também a um filme, de George Cukor, no qual uma mulher é manipulada por seu marido com mentiras sistemáticas que a fazem duvidar de sua própria sanidade.
Tal dúvida da sanidade parece depender – e por isso destaco o elemento do isolamento – da falta de qualquer outro parâmetro de realidade que não o marido, no caso dos três filmes. O isolamento dos casais, o ensimesmamento das relações, combinado com o contexto geral de hierarquia entre os gêneros, dá ao homem poder de ditar a realidade, de elevar as próprias opiniões e percepções ao nível de fatos incontestáveis, mesmo quando isso não é feito com a intenção imediata de manipular a mulher.
As feministas sabemos que as quatro paredes favorecem as estruturas do patriarcado-capitalista, que a maior parte da violência contra a mulher se dá na esfera privada, onde outras lógicas que não a racionalidade e bom senso da esfera pública se aplicam. Sabemos que a maior parte dos agressores escondem-se à plena luz simplesmente porque a esfera privada está, de fato, fora do alcance do público.
É, para a multiplicação dessas violências, essencial o papel do isolamento dos casais, dos núcleos familiares e mesmo de qualquer relação que vá assumindo características de intimidade ou segregação do público (mulheres sofrem violência psicológica por pais, irmãos, maridos e namorados – mas também por amigos, médicos, chefes). Essas quatro paredes, além disso, nem precisam ser físicas, mulheres são beliscadas, chutadas, assediadas e agredidas em espaços públicos, por pessoas conhecidas, as quais elas não têm coragem de expor, porque isso equivaleria a expor a esfera privada, trair a intimidade, trair as relações. As quatro paredes podem ser virtuais – as mulheres são assediadas, agredidas, humilhadas e sofrem gaslighting nos chats privados de suas redes sociais. Em alguns casos expor é uma opção, mas não quando elas acham que devem a esses homens qualquer tipo de lealdade.
E, certamente, a violência psicológica é condição de possibilidade para a violência física. Quando pensamos nos ciclos da violência, evidente que nenhum mulher aceitaria flores depois de apanhar a noite inteira se não estivesse convencida, pelo menos um pouco, de que merecia apanhar. No isolamento da relação, ela não tem para quem perguntar se é de fato burra, mal-caráter, puta, dissimulada, mimada, folgada, arrogante, mentirosa, feia ou louca (sem contar a vergonha, sem contar a desqualificação de amigas, de familiares).
Nem todo homem é um agressor, mas em geral o discurso do homem é socialmente legitimado, e o da mulher (como de vários grupos oprimidos) é deslegitimado. O feminismo está aí para criar redes em que as mulheres possam se apoiar, mesmo que seja para checar a realidade, para terem certeza que não estão loucas. Mas o feminismo tem que estar aí também para os homens perceberem que sua sensibilidade e opinião não são régua do universo, e que eles nunca mais poderão exigir que nada, nada mesmo, fique entre quatro .